quarta-feira, 27 de julho de 2016

7º DIA NO ATACAMA: Tour do Vinho

Ainda no dia 03 de Abril, depois de termos feito o Trekking Guatín pela manhã (confira aqui a matéria completa), nós descansamos um cadinho em San Pedro, mas para manter o ritmo maratonista e aproveitar ao máximo tudo de maravilhoso que o Atacama oferece, fomos de tarde  em mais um tour organizado pela Flavia Bia Expediciones. Dessa vez, o passeio seria super diferente de tudo que vemos por aí a respeito do Atacama e estávamos muito curiosos para ver como seria o Tour do Vinho.



. TOUR DO VINHO: Toconao + Lagoa Chaxa (Salar de Atacama)
- Saída e Retorno: 15:20 - 21:00 hrs.  - Tour: 50.000 cl 
- Entrada no Parque da Laguna Chaxa: 2.500,00

Habemus Vinho!!! A bebida preferida do deus Baco, que há milênios faz parte dos cardápios do mundo inteiro, sempre pode nos surpreender! Antes de viajarmos, quando eu falava para as pessoas que visitaríamos uma região de vinícolas no Atacama, muita gente achava que isso nem existisse. De fato, é algo mais recente mesmo, de menos de 10 anos e os passeios para lá não eram feitos. Além de sermos grandes apreciadores da bebida, somos muito curiosos por entender todo o seu processo de produção e o fato de estarmos no meio de um enorme deserto tornou ainda mais interesse esse nosso passeio, até porque poucas pessoas fizeram esse passeio antes e não tínhamos encontrado muitas informações. 


Portanto, em razão disso e da  nossa própria curiosidade em experimentar esse vinho tão especial, estávamos com alta expectativa para esse passeio.


A Flávia foi uma fofa e nos convidou para irmos lá, mesmo sendo somente a gente, primeiro, porque se trata de um passeio mais recente e é legal mostrar para as pessoas que este pode ser mais uma opção de lazer no Atacama. Segundo, porque há toda uma preocupação de cooperar com a região de Toconao, que, não obstante ser praticamente vizinha à San Pedro, como San Pedro do Atacama ficou famosa e atrai todos os turistas, Toconao ficou um tanto quanto esquecida. 



Quem nos acompanhou neste passeio foi o motorista Felipe, em carro de passeio (os passeios da Flávia são sempre feitos em 4x4, modelos que parecem com vans, mas como esse foi feito somente para nós três - eu, Julio e nossa amiga Rebeca - bastava um carro de passeio convencional, até porque não enfrentaríamos estradas que exigiam um veículo mais potente). Aliás, diga-se de passagem que Felipe e Christian merecem nota 1.000 no quesito pontualidade! São os melhores da agência da Flávia neste quesito!



Assim, saímos no horário combinado e partimos para a região de Toconao, a cerca de 30 minutos de São Pedro do Atacama, onde primeiramente paramos em sua praça principal para visitar a igreja. Ficamos lá cerca de 30 minutos, tempo suficiente para a gente apreciar a pracinha, as construções ao redor, que nos passavam a impressão de ser um lugar ainda mais simples e mais pobre que San Pedro. E tiramos fotos, é claro!






Na verdade, estávamos aguardando o o Wilfredo, que é um empreendedor local de origem indígena, entusiasmado com seus projetos e um grande investidor na região: ele é dono de hotel, de vinícola e do restaurante El Toconar no qual,  por coincidência, havíamos almoçado naquele mesmo dia.


vinícola aos pés dos vulcões do Atacama

canaletas para levar a água

Seguimos o carro dele e fomos em direção à sua propriedade, onde Wilfredo nos explicou todo o processo de fabricação de seus vinhos no meio do deserto. Foi até engraçado nosso primeiro contato com ele, porque ele é tão simples, tão despojado, estava super à vontade, com bermuda, chinelos... totalmente diferente de qualquer outra experiência em vinícola que tivemos antes e a gente tinha visitado a Undurraga no Chile antes de seguirmos para o Atacama. 

Visitamos dois locais distintos: primeiro, percorremos parte de suas terras e viñas. Ele contou que  só recebe água para irrigação de 25 em 25 dias, água esta que ele armazena em um tanque dentro do seu terreno e vai distribuindo e irrigando as parreiras todos os dias, em determinados horários, pelo sistema de gotejamento que é controlado por equipamentos que me pareceram bem modernos.





Wilfredo, que já carrega no sangue o interesse de seu pai pela agricultura no deserto, cresceu neste meio onde plantar uvas e fabricar vinhos, ainda que de forma mais rudimentar, era comum. Isso fez despertar sua curiosidade e ele foi atrás de estudos mais aprofundados e de técnicas mais modernas e eficazes. Por exemplo, ele esteve, inclusive, em Israel por duas vezes, onde aprendeu várias técnicas da viticultura em teremos áridos e trouxe esse conhecimento para implementar na sua pequena vinícola.





No primeiro ano de plantação das uvas, ele produziu pouco mais de 60 garrafas de vinho. No segundo ano, foram em torno de 250 garrafas. No terceiro ano, cerca de 1.500 garrafas. E hoje, já no quarto ano de produção (2016), tem a estimativa de produzir cerca de 2.500 mil garrafas de vinho, sendo que seu Shyrah e seu Petit Verdod foram degustados por um professor e enólogo da Universidade do Chile, de Santiago, Sr. Álvaro Peña Neira, que ficou encantado com a qualidade de seus vinhos.

Pudemos provar algumas uvas retiradas das parreiras e muitas estavam bem docinhas... uma delícia!





Na segunda etapa da visita, nós fomos a uma casa onde ficam armazenados os vinhos no processo de maturação e envelhecimento. Por enquanto, somente em tonéis de aço inox, mas o Wilfredo nos mostrou as primeiras barricas de carvalho francês que chegaram na época em que fomos (e eu imagino que já devem estar sendo usadas à essa altura) e que seriam em breve inauguradas para o armazenamento dos seus vinhos e envelhecimento deles. 





Ele explicou que, por uma questão legal, há uma obrigação que impõe um investimento que deve ser feito pelas  mineradoras da região na produção do vinho de Toconao. Como o Chile tem a maior parte da sua economia sustentada pela extração de minérios, as mineradoras são muito fortes por lá em todos os lugares, do norte ao sul do país. Achei interessante saber que a mineradora, que é uma empresa privada, se torna proprietária do terreno, do seu subsolo e do que está acima dele, o que é diferente do Brasil, onde a nossa Constituição prevê que o proprietário do subsolo é o Governo Federal que emite licenças especiais para sua exploração.



Pois bem, como as mineradoras chilenas obviamente fazem seus estragos na exploração dos terrenos, com degradação ambiental, existe esse regramento que o Wilfredo explicou que impõe que as empresas apoiem projetos das populações locais no seu desenvolvimento econômico. Daí que eles receberam essas barricas de carvalho francês, que são caríssimas, das mineradoras, e começarão a armazenar os vinhos nelas, o que certamente refletirá em novas notas aos vinhos, porque o amadurecimento do vinho na barrica de madeira produz sempre vinhos diferentes, com aromas e notas até mais elegantes, com mais corpo e taninos do que aqueles que passaram somente por tonéis de aço inoxidável.

Vejam que não é apenas o Wilfredo que produz vinho na região, mas há outros produtores em Toconao que compartilham o espaço nesta casa e nós pudemos reparar que em cada tonel havia o nome do produtor, o tipo de uva, medições de data, acidez, teor alcoólico, local onde eles controlam a qualidade do vinho e também fazem seus experimentos, havendo um pequeno laboratório para eles testarem novos sabores, misturas, texturas.... Eles formam uma espécie de associação de produtores de vinho.





Todos os vinhos de Toconao recebem o mesmo rótulo com a marca Ayllu. Aliás, é um rótulo bem elaborado e bonito. O que diferencia um de outro é a parte de trás do vinho que mostra o produtor, a uva e o ano. 




Na essência, podemos dizer que são vinhos orgânicos por não usarem pesticidas nem outros produtos químicos. Porém, ao perguntar sobre isso para o Wilfredo, ele explicou que para efetivamente receber o certificado de vinho orgânico falta 1 ano de produção, pois o certificado só é emitido para viñas com pelo menos 5 anos de fabricação de vinhos, após realizados todos os testes para realmente comprovar que são orgânicos.



Todo o passeio foi muito interessante e diferente do que vimos fazendo no Atacama. Aprendemos bastante e vimos como a dedicação e o empenho de um povoado no meio do deserto são capazes de superar adversidades complicadas como o clima seco e a falta de água. 



Mas calma aí... eu ainda não falei sobre a melhor parte, né? Claro que nós experimentamos alguns vinhos. Nós fizemos a degustação de 3 vinhos, para ser exata, sendo que dois ainda não estavam prontos, como no caso do Petit Verdod que até nos agradou mais. Portanto, para quem for lá nos próximos meses, se o Petit Verdod estiver pronto, essa é a nossa grande aposta rsrs... Pode trazer uma garrafa para a gente que ficaremos muito felizes, combinado? =)



Wilfredo também nos ofereceu queijo de cabra, que estava delicioso, e uns biscoitos para acompanharem a degustação do Shyrah que experimentamos. Um vinho tinto muito suave, pouco ácido, com poucos taninos (confesso que nem senti os taninos). Acabamos comprando um vinho Ayllu Shyrah e curtimos muito a experiência!



Ao final da degustação, Julio ainda foi brincar de enrolhar uma garrafa de vinho com a máquina da associação. Como engenheiro mecânico, ele adora essas engenhocas e ficou lá se esforçando para fazer bonito de primeira rsrs... felizmente, não houve desperdício e ficou bonitinho. Mas não pensem que é fácil, viu? Ele teve dificuldade e tem que ter cuidado para não empurrar demais a rolha.




Um detalhe super importante: as vinícolas de Toconao estão a mais de 2.400 metros de altitude, sendo as viñas de maior altura em todo o Chile!!



Por essa você não esperava, hein? Deixei a informação mais bacana para o final mesmo... com escassez de água, clima árido e a 2.400 metros de altura!! Ficou curioso, então aproveite que leitores do Apaixonados por  Viagens têm descontos nos passeios com a Flavia Bia Expediciones e não perca oportunidade de conhecer essa região!

Nós fomos, gostamos e recomendamos o passeio.


Mas como o passeio não acaba aí, achei melhor separar em dois posts para dar o devido destaque a cada um. Ou seja, se você contratar o passeio para o Tour do Vinho, logo depois de terminada a degustação, o grupo vai seguir para o Salar do Atacama e visitará a Laguna Chaxa, sobre a qual eu contarei no próximo post, ok?



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