quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ilha Grande: Eco-Hike, um passeio que une história e natureza

Já viram nosso Guia com Dicas de Ilha Grande? Confiram aqui!

Vou contar para vocês um pouco mais sobre o Eco-Hike guiado pelo Felipe, que fizemos em Ilha Grande, um tour histórico que reúne muitas informações sobre a ilha e muita natureza.

Em parceria com a agência de turismo local Eco & Adventure, mais conhecida como O Verde, que tem ótimos comentários no TripAdvisor, fomos convidados a fazer esse passeio que mistura história com ecoturismo, chamado de Eco-Hike.

Gigi, dona da agência, e Felipe, nosso guia, são dois grandes entusiastas e admiradores da exuberante natureza da ilha.

Gigi é uma argentina muito simpática que fala fluentemente português, inglês e, obviamente, espanhol. Já o Felipe, carioca, de pais gaúchos, trabalha como guia turístico há alguns anos e ambos radicaram-se em Ilha Grande e adotaram-na como lar.




A 11ª maior ilha oceânica do país, que pertence ao município de Angra dos Reis, na  Costa Verde Fluminense, com cerca de 190 km², a cerca de 2:30/3:00 de carro do Rio de Janeiro (em condições normais de trânsito), é composta por uma riquíssima biodiversidade: Mata Atlântica, praias paradisíacas, vida marinha espetacular e uma fauna e flora terrestres que encantam a todos.

E esse ecossistema é protegido pelo Parque Estadual da Ilha Grande, Parque Estadual Marinho do Aventureiro, Reserva Biológica e Arqueológica da Praia do Sul e a APA de Tamoios, que são unidades de conservação voltadas à preservação do meio ambiente!



O acampamento em local proibido é uma das principais preocupações. As praias mais fiscalizadas são: Aventureiro, Abraão, Dois Rios, Provetá, Caxadaço, Lopes Mendes, Santo Antônio e Leste/Sul (sendo que nestas últimas é proibida a entrada de pessoas não autorizadas).

Ainda hoje, apesar das unidades de conservação e proteção ambiental, Ilha Grande enfrenta problemas básicos que são prejudiciais ao seu ecossistema, como o precário recolhimento do lixo, a falta de tratamento do esgoto (e isso nós pudemos ver, ou  melhor, sentir o odor forte de mau cheiro vindo de córregos que cortam a Vila de Abraão), número crescente de turistas, sendo que muitos deles não têm consciência ambiental e não recolhem seus lixos, construções irregulares, a caça e a pesca predatórias, dentre outros. 



Infelizmente, a mata atlântica, semelhante a da Serra do Mar, remanesce conservada apenas nas montanhas, o que dificultou a destruição humana. Uma pena porque registros históricos descrevem as florestas da Ilha Grande como as mais bonitas do início da colonização do Brasil, pois elas chegavam até a beira do mar. 

Muitos turistas vão para Ilha Grande exatamente em busca desse maior contato com a natureza. Não há carros na ilha, as ruas não são asfaltadas, muitos passeios são feitos de barco ou por trilhas com caminhadas e pedaladas. ... É um lugar repleto de atrativos!




Porém, nem sempre foi assim. E o passeio com o Felipe, que mora lá há 15 anos e conhece bem a ilha, mostrou-nos um pouco da sua história e fez despertar bastante a minha curiosidade para saber mais sobre ela.

Nós começamos o passeio na Vila do Abraão e fomos à sede do INEA - Instituto Estadual do Ambiente.

Há uma maquete de Ilha Grande que dá uma bela noção do seu tamanho, das praias e vilarejos, cartazes e livros sobre a história da ilha, dentro de um casarão antigo.

São mais de 100 PRAIAS catalogadas em Ilha Grande! Isso sem contar as grutas, lagoas, cachoeiras, rios, riachos... ou seja, tanta beleza que merece cuidado e preservação.

Após, seguimos caminhando pela trilha no sentido da Praia Preta.




Pelo caminho, bambuzais e mirantes para a Vila do Abraão tornaram a trilha ainda mais bela!



Para a nossa alegria, o sol apareceu durante o passeio! E tornou todas as paisagens ainda mais belas!



Fomos então direto para a Praia da Areia Preta e o Felipe mostrou para a gente a pedra que é rachada ao meio e os antigos acreditavam que tivesse sido um raio!!


buracos nas pedras onde os tamoios afiavam seus instrumentos de luta

Será? Rsrs... ou seria apenas uma consequência de erosão? Mistérios ...



Ele também mostrou uns buracos nas pedras nos quais se acredita que os índios Tamoios afiavam seus instrumentos de luta e que ali seria um dos postos de observação e defesa da ilha, da mesma forma como em outros pontos da ilha onde foram identificados vestígios semelhantes.

** Um pouco da história de Ilha Grande ... **

Ilha Grande foi descoberta em 06 de janeiro de 1502, juntamente com a cidade de Angra dos Reis, à qual pertence, portanto, ambas comemoram a mesma data de fundação. 

Uma região que pertencia aos índios Tamoios, que iam desde Cabo Frio até Ubatuba, e já chamavam-na de Ilha Grande, ou Ipaum Guaçú, no seu idioma.

De acordo com os relatos do Padre Anchieta, os tamoios viviam em aldeias com cerca de seis ocas, eram ótimos guerreiros, flecheiros, caçadores e pescadores, o que justifica também a associação feita nas pedras da Praia Preta com a atividade de afiar seus instrumentos de combate. Os tamoios acabaram se aliando aos franceses enquanto que os portugueses se aliaram aos tupiniquins. Porém, com o passar do tempo, os tamoios foram escravizados pelos portugueses, com o fim da guerra com os Tamoios, em 1567.




Assim, a Coroa Portuguesa pode determinar a colonização da ilha cuja tentativa começou em 1590 (data dos primeiros registros), na Praia do Morcego (hoje, a enseada do Abraão, que pertencia ao pirata espanhol Juan Lourenzo) e outra na Enseada das Estrelas. Mas só lá para 1700 e 1800 que efetivamente houve o início da colonização.

Ainda, no século XVIII, houve muitos desembarques de escravos trazidos por traficantes da África. Dizem que em frente à fazenda que existia em Dois Rios foram incendiados dois navios negreiros, mas que sua "carga de escravos" conseguiu se esconder na toca das cinzas por vários dias. A trilha T16, que vai de Dois Rios para Parnaioca, passa ao lado da toca das cinzas. Contudo, a partir de 1850, quando Portugal decidiu cooperar com os Ingleses, que estavam pressionando pelo fim da escravidão, já que tinham interesse na industrialização, inciou-se um patrulhamento mais eficaz nas enseadas de Lopes Mendes, Palmas, Abraão e Estrelas em combate ao tráfico de escravos

E não podemos contar a história de Ilha Grande sem deixar de mencionar o papel dos piratas! Muitos que vinham para a América do Sul atrás do outro e da prata da bacia do Prata (região da Argentina e Uruguai) usavam a Ilha Grande para reabastecimento de água e lenha antes de partirem em definitivo para a Europa, lá para os idos do século XVI. 

Também houve muito contrabando de pau brasil, principalmente no período em que Portugal ficou sob domínio da Espanha, época em que a costa brasileira ficou bastante desprotegida, sendo atacada por piratas ingleses, holandeses, franceses, argentinos, ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, motivados, em parte, também pelo ouro das Minas Gerais que escoavam no porto de Paraty e, após atacarem Paraty, eles se abrigavam na Ilha Grande, que sempre teve muita abundância de água potável e muita madeira, antes de seguirem rumo.



Outro fato importante na história da Ilha Grande aconteceu no século XIX, com a existência de nove engenhos que produziam álcool e açúcar, na enseada das Estrelas, Freguesia de Sant'Ana, Matariz, Sítio Forte, praia da Longa, praia de Dois Rios, enseada das Palmas e Abraão. Durante esse período, lamentavelmente, houve grande desmatamento da Mata Atlântica para o plantio das lavouras de cana de açúcar e, mais tarde, para a cultura do café. Já na segunda metade do século XIX, com o declínio do café e o fim do tráfico de escravos, houve a decadência econômica da região.

A ilha passou à condição de freguesia, com o nome de Santana da Ilha Grande de Fora, em 1803, ganhando autonomia jurídica em relação a Angra dos Reis.

Todavia, Ilha Grande volta a aparecer na história do Brasil quando Dom Pedro II, em meados do século XIX, mandou construir o Lazareto, na Fazenda do Holandês, que era uma espécie de hospital  de triagem e de quarentena para imigrantes e viajantes portadores de cólera contraída nos navios e, depois, um sanatório para doentes de hanseníase. Assim, em 1886, o Lazareto ficou pronto e acabou influenciando decisivamente para o desenvolvimento da Vila de Abraão, que foi elevada a distrito de Angra dos Reis, em 9 de maio de 1891.



O Lazareto funcionou de 1886 até 1913, tendo atendido 4.232 embarcações. Inclusive, o próprio Dom Pedro II esteve no Lazareto, na condição de prisioneiro, logo em seguida à proclamação da República e fim do Império, onde aguardou o transporte que o levou para o exílio na Europa.

Já na era republicana, o Lazareto passou por reformas, ocasião em foi construído o aqueduto, que ainda existe e nós passamos por ele na trilha que começa na Praia Preta e segue para a Cachoeira da Feiticeira. Esse aqueduto tinha condições para ter vazão de mil litros por hora!


Em 1913, o Lazareto encerrou suas atividades e permaneceu desocupado até meados da década de 30, quando voltou a ser usado pelos fuzileiros navais que estiveram na Ilha Grande para realização de manobras militares.

E você já ouviu falar dos presídios que existiam em Ilha Grande? Já imaginou ficar preso neste paraíso?

Existe até um passeio a Dois Rios onde se pode visitar um dos presídios, mas não tivemos tempo de fazê-lo.

A bem da verdade, esse lado nada bonito de Ilha Grande ficou mais conhecido a partir da obra de Graciliano Ramos, intitulada "Memórias do Cárcere", que eu já tive a oportunidade de ler, que foi escrita a partir das suas experiências vivenciadas no presídio de Dois Rios, para onde foi encaminhado como preso durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945).

E tudo teve início em 1903, quando foi instalada oficialmente a Colônia Penal de Dois Rios. Nem mesmo o Lazareto escapou, quando em 1940 ele foi outra vez reformado e modificado para ser transformado em presídio e passou a ser chamado de Colônia Penal Cândido Mendes. Esses presídios abrigavam presos comuns e políticos também.

O presídio da praia de Dois Rios funcionou até 1994, quando, já motivo para muita insegurança para a população devido às fugas dos presos, os prédios foram demolidos durante o governo Brizola. Em 1998, a UERJ (Universidade do Estado do  Rio de Janeiro) inaugurou no local o Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável. 

E hoje em dia? A economia de Ilha Grande depende muito do turismo e do pouco da pesca que ainda sobrevive. Infelizmente, a produção da pesca enfrenta uma crise que é diretamente relacionada à pesca predatória realizada por barcos arrastões e traineiras de todos os portes que não obedecem o limite mínimo de 1 km de afastamento da costa. O núcleo pesqueiro da Ilha Grande é Provetá.

** CURIOSIDADES DE ILHA GRANDE **

1) Você se considera sortudo? Então conseguirá ver as baleias Jubartes em Ilha Grande! Elas chegam em junho/julho e permanecem até novembro/dezembro.

2) Cultura local mais marcante é a caiçara, com influências indígenas, portuguesas, espanhola, africana, inglesa, holandesa e francesa.

3) Calango é a dança tradicional da ilha. Uma espécie de arrasta-pé ao som da sanfona e do triângulo.

4) Todas as segundas-feiras, os moradores da Vila do Abraão acendiam velas para os mortos no cruzeiro existente na frente da igreja de São Sebastião.

5) As primeiras construções na Ilha Grande foram feitas de pau a pique (bambu, cipó e barro), cobertura de sapê ou telhas de barro "feito nas coxas", na perna de um homem. As telhas não seguiam um padrão de tamanho exatamente por serem moldadas nas pernas e veio daí a expressão que passou a ser usada genericamente para tudo que era feito sem padrão, de qualquer jeito, ou seja, "nas coxas"!


** CONTINUAÇÃO DO NOSSO PASSEIO **

O Felipe, que foi nosso guia, também é um grande entendedor da fauna e flora locais, principalmente quando o assunto é Passarinhos!

Ele conduz outro passeio que está ganhando espaço em Ilha Grande, voltado para os amantes da natureza, que se chama Bird Watch ou, carinhosamente traduzido para Passarinhando! Trata-se de uma caminhada ecológica focada na observação de pássaros e que acontece pelas manhãs, bem cedo.



Nós, então, começamos pela sede do Parque Estadual da Ilha Grande, seguimos pela Praia Preta, paramos no Lazareto, que era uma instituição que servia de centro de triagem e de quarentena para os passageiros enfermos que chegavam no Brasil, pois Ilha Grande era um local, no passado, que servia para isolar doentes de hanseníase e cólera. Também serviu de presídio político durante os primeiros anos da República (hoje, não há mais presídios em funcionamento em Ilha Grande!).


Depois, adentramos com tudo na Mata Atlântica! 

Fizemos algumas pausas pelo caminho, até porque o sol chegou com tudo e fez muito calor! Acho também que eu estava fora de forma kkkk... precisei parar um pouco!

A trilha, em si, não é difícil no sentido de que não há escaladas ou coisa equivalente. Mas é cansativa, com trechos de subidas em degraus que realmente requerem um esforço maior.

Uma dessas pausas foi na curiosa árvore que, segundo o Felipe, lê e transmite seu pensamento (tem que ir lá para entender esse mistério rsrs)!

Também no antigo aqueduto que era o responsável por levar água para a Vila. Vimos o cabo suspenso de energia que vem do continente, muitos bambuzais pela trilha, rios e córregos também. 



Foi uma delícia de passeio, porém, muito quente porque a essa altura o sol já estava forte e ficou bastante abafado na trilha. Até uma árvore Pau-Brasil o Felipe mostrou para a gente! E mostrou também outras espécies da flora local.


Estávamos doidos para chegar logo na Cachoeira!

E que banho gostoso, viu? 



A água é gelada, em tons castanhos e havia muitos sedimentos da floresta, como folhas e alguns galhos, mas eu estava com tanto calor que amei aquele banho! 

E tiramos muitas fotos antes da galera chegar.

Demos sorte e tivemos a Cachoeira da Feiticeira praticamente só pra gente durante um tempo.

Dica: vale a pena entrar na cachoeira com muito cuidado porque há muitas pedras. Se tiverem sapatilhas de neoprene (papetes) ou tipo crocs, já facilitará bastante.

Com a energia renovada e refrescados, seguimos para a Praia da Feiticeira, numa trilha com trechos escorregadios por causa da chuva que havia caído pela manhã. Essa trilha durou uns 25 minutos. 


E não é que eu levei um estabaco nela??  kkkk... foi nada sério, graças a Deus. No máximo, renderia uma boa Videocassetada kkkk...

Praia da Feiticeira estava bem cheia quando chegamos. Acho que todo mundo teve a mesma idéia rsrs... Como muitos passeios que vão para o sentido da Lagoa Azul, na volta, param na Feiticeira e, considerando que ela fica relativamente perto da Vila de Abraão, era uma opção boa para correr e aproveitar o sol que saiu do nada após tanta chuva pela manhã. 



A essa altura, todavia, o sol já estava escondido também. Mas a gente resolveu ficar por ali mesmo descansando e fotografando (no meu caso rsrs).


Como chegamos mais tarde na praia, pelo menos pudemos observar que as pessoas iam embora e, aos poucos, a praia foi ficando mais e mais vazia, para a minha alegria!



Obs: preço da água de coco - R$5,00.

Assim encerramos o passeio e voltamos para a Vila do Abraão em táxi boat que custou R$20,00 o trecho.


E dessa forma a gente encerrou o nosso passeio!! Gostaram?
Shopping Alfa, onde está a agência O Verde



**FICHA TÉCNICA DO PASSEIO**

- Nome: Caminhada Histórica e Feiticeira guiada

- Agência de Turismo: Eco & Adventure, conhecida como O Verde

- Localização da Agência: Shopping Alfa (é um galeria quase em frente ao Cais da barca CCR).

- Contatos:

. clique aqui no site

. e-mail: info@overde.com

. telefone: +55 (24) 99989-0682

- TripAdvisor: veja aqui os comentários sobre a agência

- Guia: Felipe

- Dona da Agência: Gigi

- Nome do passeio: Eco-Hike

- Duração: como se trata de trilha em boa parte do passeio, depende muito do ritmo do grupo. Nós saímos por volta das 13h e só regressamos para o Abraão por volta das 17:30. O passeio todo deve durar umas 4/5h.

- Nível de Dificuldade: nível 0. Não há dificuldades no sentido de que a trilha é praticamente plana, porém

- Local de saída: nós saímos da agência, mas acredito que isso possa ser combinado com a Gigi.

- Valor: R$120,00 por pessoa

- O que inclui: guia, snacks, água que o guia leva e fotos. 

- Se desejar fazer rapel na Cachoeira da Feiticeira, combine com a Gigi! Custa R$150,00


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