05 agosto 2018

Ilha de Marajó: roteiro, passeios e gastronomia

Ilha de Marajó: roteiro, passeios e gastronomia

Por Rafa Pinto (do blog Rafa pelo Mundo

Apesar de ser paraense, só fui ao Marajó quando criança, numa viagem de navio de Belém para Manaus e que tinha a ilha como uma das paradas.  Como já era de se esperar, não lembrava mais de muita coisa.



Ficava incomodada comigo mesma toda vez que alguém me perguntava se eu conhecia o Marajó e eu respondia que não. Como pode uma pessoa ser de Belém conhecer mais de 20 países e não conhecer seu próprio quintal? No último feriado de Corpus Christi decidi mudar o rumo dessa conversa.

A Ilha do Marajó, localizada no extremo norte do Pará, tem área de aproximadamente 40.100 km² e é a maior ilha fluviomarítima do mundo, cercada pelos Rios Amazonas, Pará e pelo Oceano Atlântico. Para terem uma noção, a ilha é maior que países como a Suíça e a Bélgica, por exemplo.


Tratando-se de turismo na região, a cidade de Soure sai na frente das demais, seguida de Salvaterra, que é a cidade vizinha. Por conta disso, fiquei com muita dúvida na hora de decidir onde me hospedar. Acabei perguntando para amigos que estiveram lá recentemente e a maioria recomendou que eu optasse por Soure e foi o que eu fiz.



Nos hospedamos na PousadaO Canto do Francês, que é número 1 no Trip Advisor. A pousada é OK, sem luxo, bem limpa e com ar-condicionado, o que é muito importante pra mim rs. Outra coisa que merece destaque na pousada é o atendimento solícito desde o momento da reserva, em que nos deram bastante informação ainda por e-mail e até anteciparam umas reservas de passeio para fazermos.


Preferimos não alugar carro nessa viagem, pois se alugássemos teria que ser em Belém e teríamos que atravessar de balsa, o que demandaria mais tempo e mais custo, por conta da travessia do veículo. A travessia para quem vai de balsa demora aproximadamente 3:30h.

Optamos por ir de lancha rápida de Belém pra Soure, numa lancha que parte do Terminal Hidroviário do Porto de Belém (Doca). Como fomos num feriadão, compramos a passagem com antecedência direto no Terminal. A lancha parte de Belém sempre às 8:15h, apenas uma vez ao dia (exceto aos domingos) e a passagem custa R$48,00 (valores junho/2018). A duração da viagem é de aproximadamente 2h e a viagem é bem tranquila.

Observação: Infelizmente não dá pra comprar a passagem online. Só comprei com antecedência porque minha família mora lá e meu sogro foi comprar para mim.

Atualmente, a única empresa que faz o trajeto direto entre as cidades é a Master Motors e é dela que me refiro aqui nesse post. O itinerário da viagem é Belém -> Salvaterra -> Soure, sendo que apenas 5 minutos separam uma cidade da outra.

A lancha possui assentos marcados, ar-condicionado, cortina para luz não incomodar, lanchonete e banheiro. Além disso, não sacudiu nada e não tivemos problema com enjoo.

A lancha costuma atracar em Soure cerca de 10:30 e, ao desembarcar, você vai se deparar com diversos mototaxistas e taxistas oferecendo o serviço de transporte. 


Como estava muito sol, optamos pelo táxi, mas foi a única vez que utilizamos por ser muito caro e ruim. A pousada onde nos hospedamos ficava a uma distância de mais ou menos 1,5 km do Porto, mas por conta do peso das mochilas e do sol, desistimos de ir a pé.


Obs: não há bagageiro na lancha. As malas ficam na frente da lancha. Ou seja, dá para ir com mala (mas aí é melhor marcar um assento mais para frente da lancha para ficar perto da sua mala, se quiser dar aquela vigiada nela). O ideal, para ficar mais à vontade, é ir de mochila mesmo, principalmente se for pegar o moto-táxi quando chegar.

O que não pode faltar na sua bagagem: 

- Protetor Solar
- Repelente bem bom
- Chapéu - Boné
- Óculos de Sol
- Dinheiro em Espécie (é bom ter noção dos passeios que fará e levar a quantia aproximada dos gastos)
- Roupas leves (faz muito calor... não precisa de casaco)
- Capa de Chuva (se quiser ficar mais sequinho)
- Mochila à prova d`água pode ajudar também



Temporada de Chuvas: o inverno amazônico, que vai de janeiro a maio, mais ou menos, é a época mais chuvosa. Porém, como estamos falando da região Norte do país, chuvosa por natureza, o risco de chover é sempre grande. Já o mês de julho é considerado o verão amazônico e temporada de alta procura pelas praias.

As corridas de táxi em Soure são sempre tabeladas, por isso recomendo que sempre pergunte ao motorista o preço da corrida antes de embarcar. Para terem uma ideia, pagamos R$20 por 1,5 km de percurso.

Fizemos check-in, guardamos as coisas e a fome já tinha batido. Fomos almoçar no Restaurante Solar do Bola, perto da pousada. O restaurante, como tudo na cidade, é simples. Aliás, vale destacar que a simplicidade faz parte de uma viagem ao Marajó, então não espere por glamour nem luxo em lugar algum por lá.

Voltando a falar do restaurante, pedimos o seu carro-chefe: filé marajoara - filé de búfalo com queijo do Marajó - que é uma das delícias que você vai encontrar em quase todos os restaurantes. Fique atento ao tamanho das porções, que são geralmente muito bem servidas. Nessa ocasião, por exemplo, pedimos um filé que servia muito bem duas pessoas e com preço muito em conta (R$40).


Acabei encontrando um amigo da época de faculdade que passou num concurso e que está morando lá. Depois de colocar os papos em dia, fui para o hotel aguardar o horário do passeio da tarde: Fazenda Bom Jesus. Reservamos o passeio com antecedência através da pousada, que agendou uns dias antes. Mas, afinal, o que inclui esse passeio?
  • Transporte ida e volta a partir do hotel;
  • Montaria em búfalo (se quiser);
  • Caminhada na fazenda para avistar bichos preguiça, guarás, macacos, jacarés, búfalos, capivaras, etc.;
  • Lanche no fim da tarde com produtos regionais;
  • 4h de duração;
  • R$ 100,00 por pessoa
Buscaram a gente pontualmente no hotel às 15h. Seguimos para buscar outro casal que também ia fazer o passeio e de lá seguimos para a Fazenda, que fica um pouco distante do centro da cidade. 

Primeiramente, visitamos a criação de búfalos, que é muito grande, mas que curiosamente não é a principal fonte de receita da Fazenda, sendo esta a plantação e venda de coco seco, que abastece o Ver-o-Peso, maior mercado da América Latina.


Ao contrário do que muitos imaginam, o passeio não acontece sobre um búfalo. Você monta apenas se quiser, tira foto e pronto. Os búfalos, apesar do peso assustador de 900 kg, em média, são animais bastantes dóceis. 


Eu, particularmente, não me animei para montar. Meu marido montou num da raça Carabao, a mais comum na região.




O búfalo é uma espécie quase que onipresente em Soure: para onde quer que você olhe, lá estarão eles. Os locais dizem, inclusive, que há mais búfalos que pessoas na cidade e é no Marajó que está a maior concentração deles nas Américas.

Depois de tirar bastante foto do rebanho, seguimos por uma trilha de 5 km, cujo tempo nem vimos passar. A trilha se dá num terreno plano e felizmente não estava muito sol nessa tarde, o que amenizou o calor. O passeio é todo guiado por um dos  funcionários da fazenda e nessa ocasião foi pelo César, um moço muito atencioso, simpático e com bastante conhecimento sobre o local.



Durante a trilha vimos uma vegetação muito diferente, repleta de mangues, árvores pitorescas, gados, belas aves, capivaras, jacarés. Tudo soltinho na natureza. As paisagens mudavam conforme o sol caía, com o céu desenhando cores. É tudo bem rústico, sabe? Tudo muito limpo, uma natureza quase intocada. Achei esse passeio excelente e fiquei com muita vontade de fazer outro passeio de fazenda no dia seguinte. :)

A trilha acaba em uma das casas da fazenda, onde podemos repor as energias com um farto lanche de fim de tarde repleto de produtos locais incluído no passeio: suco de frutas regionais, pão caseiro, sanduíches com queijo do Marajó, doces típicos. Tudo bem fresquinho e delicioso.


Após o lanche, partimos numa lancha pequena rumo ao carro, para poder voltar para a pousada. Nessa hora o sol caía e o contraste do pôr do sol com o rio e com a mata foi espetacular. 


Já estava escuro quando chegamos na Pousada, lavamos as botas que estavam imundas de lama e descansamos um pouco antes de sair novamente. Por falar em botas, achei fundamental estar com elas durante o passeio na Fazenda. 




Uma menina que estava conosco foi de tênis, que no final do passeio estava quase imprestável rs. Além de botas impermeáveis, recomendo que levem chapéu/ boné e um bom repelente. Choveu um pouco quando fazíamos a trilha, mas o guia nos emprestou capas de chuva pra continuarmos.


Como não estávamos de carro, pedimos dica de mototaxista para a recepção da pousada. Chamaram dois mototaxistas e fechamos um pacote com eles para que nos levassem os lugares de interesse.

Por recomendação do meu amigo que mora lá, fomos jantar no Delícias da Nalva, restaurante que me pareceu o mais turístico da viagem, mas ainda assim bem recomendado pelos locais. Em nossa estadia em Soure, esse foi o mais caro (gastamos R$100/casal). Comemos um peixe de rio que estava muito bom, a sobremesa estava divina e os atendentes eram bastante atenciosos. 


Como Soure é uma cidade pequena, com cerca de 24.500 habitantes, sempre que há uma "roda de carimbó" rolando... é só perguntar que todo mundo sabe. Nesse nosso primeiro dia teve, mas estávamos bem cansados e por isso não fomos. 

Carimbó, pra quem não sabe, é um ritmo musical da Amazônia, de origem indígena, e que todo mundo - na capital e no interior - gosta, principalmente em festas. Caso você não conheça, recomendo muito. 

No dia seguinte, tomamos café da manhã no hotel e fomos explorar as praias. Como dito anteriormente, contratamos os mototaxistas para nos levarem para os lugares de interesse. O pacote custou R$140.00 para duas motos (para levar e buscar nos lugares).

O primeiro destino foi a Praia do Pesqueiro, a principal da região e com boa infraestrutura para o visitante. 



Combinamos com os mototaxistas para que nos buscassem algumas horas depois. Apesar de possuir certa infraestrutura, não funcionava sinal de celular, não havia transporte público e não era perto do centro. É fundamental que vá de moto ou carro e que combine com o motorista um horário para o retorno.


Escolhemos uma barraca que tinha sinal de Wi-fi. O mais curioso é que estávamos em pleno feriadão de Corpus Christi, o clima estava ótimo, mas a praia estava bem vazia. Para terem uma ideia da paz e tranquilidade que esse lugar propicia, há uma rede para cada barraca, zero incômodo e muito vento na cara. Nem vendedor ambulante tinha. Não tinha nada além de calmaria.




Meu marido pediu uns caranguejos toc-toc e eu fiquei na água de coco até a hora do almoço. Por lá mesmo almoçamos um peixe bem gostoso chamado filhote, que é típico da Amazônia e é meu preferido. Aliás, vale destacar que comemos muito bem nessa viagem: comidas sempre simples, mas bastante gostosas e desgourmetizadas.


Algo que nos chamou muita atenção nessa viagem foi o fato de a cidade ser um lugar muito tranquilo no que se refere à segurança. Assalto não é algo habitual, todo mundo ainda vive em paz e pode se dar o luxo de dar um mergulho sem se preocupar muito com as coisas que ficam na barraca.

Por falar em mergulhar, a água da praia tem cor terrosa e escura por conta da mistura do mar com o rio, mas é bem limpa e morninha. Apesar de parecer com mar, é uma praia de rio. O melhor de ser de rio é que você sai da água sem aquela sensação de sal grudado no corpo, o que torna muito mais agradável. No segundo semestre, com a influência do Oceano Atlântico, a cor da água geralmente fica esverdeada.


Notícia boa: a água é morninha o ano todo!! 

Na entrada da praia há umas poucas lojas de artesanato que vale a pena dar uma olhadinha, pois os preços são justos e é sempre bom valorizar o trabalho dos artesãos locais.

No caminho para a Praia do Pesqueiro está outro lugar que parece bem legal de conhecer, mas que não conheci: Fazenda São Jerônimo. O passeio custa em média R$180 e lá foi gravado parte do programa "No Limite" e da novela “Amor eterno amor”.

Após algumas horas de praia, partimos para a Fazenda Mironga, que fica no caminho para o centro da cidade. Essa fazenda produz queijo do Marajó de boa qualidade e paramos lá para fazer umas comprinhas. O que mais me impressionou foi o fato de não haver sequer um funcionário no local. 




Funciona com base no autoatendimento, onde você escolhe o que quer na geladeira, deixa o dinheiro numa caixinha que fica sobre a mesa e lá mesmo pode pegar o troco, caso precise. Confesso que, em se tratando de Brasil, fiquei bem impressionada.

A Fazenda é muito bem cuidada e bonita. A produção de queijo é feita diariamente e tudo que é produzido no dia já é colocado à venda. O preço não é dos mais baratos, em torno de R$50 o kg direto com o produtor. Mas vá por mim: vale cada centavo.


Atenção: Queijo do Marajó e mussarela de búfala são coisas diferentes. 


Apesar de ser feito com o leite de búfala, o sabor não é o mesmo. Se você nunca foi ao Pará, provavelmente nunca comeu queijo do Marajó, pois esse, por regulações sanitárias, não pode ser comercializado fora do Estado. E, para ser bem sincera, não é muito comercializado nem na capital, Belém.

Após as comprinhas, rumamos para uma praia mais perto do centro da cidade, a Praia da Barra Velha, que é mais rústica e sem muita infraestrutura. Mais uma vez combinamos com os motoqueiros de nos buscarem algumas horas depois. 


Essa praia é muito exótica e bonita, com diversas árvores e mangues formando um cenário muito fotogênico.


Caminhamos por uma espécie de trilha e chegamos no Bar Netuno, um dos poucos que tem na praia, mas que não indico. Achei a qualidade tanto da comida quanto do atendimento bem inferior aos que já havíamos conhecido. Na verdade, pedimos somente uma macaxeira frita, que não estava boa e estava carregada no óleo. Não deu muita vontade de ficar ali e saímos logo.

Caminhamos para tirar umas fotos, haja vista que a praia é super fotogênica. Deixe para visitá-la no fim da tarde, quando é possível avistar a revoada de guarás. É a coisa mais linda. :)




Uma semelhança entre as duas praias é o fator limpeza. Talvez em julho, mês de altíssima temporada nas praias do Pará por ser o verão amazônico, esse cenário mude, mas achei as praias muito limpas, o que tá cada vez mais raro de vermos por aí.

Após lotar o cartão de memória da câmera, fomos ao encontro dos motoqueiros, que nos levaram pra conhecer o ateliê marajoara do Ronaldo Guedes, o artesão mais conceituado do Pará, que produz muitas peças em cerâmica marajoara. 



No ateliê você pode ter a sorte de vê-lo produzir alguma peça e aprender um pouquinho sobre a arte, que remonta a mais de 1.000 anos, quando índios ainda habitavam a região. Apesar de bem antiga, a população paraense ainda mantém a tradição da arte e isso é mais facilmente notado tanto no Marajó quanto em outras cidades do Estado. Eu, por exemplo, que moro no Rio, tenho peças de arte marajoara em casa.


Demos uma volta pelo centro e nos deparamos com policiais acompanhados de búfalos. Sim, eles utilizam o animal como viatura e isso é super normal rs.


Como o dia já estava acabando, fomos para o hotel. À noite jantamos no HotelMarajó, sobre o qual ouvi falar bem da comida. Gostei do hotel e me hospedaria nele facilmente se voltasse à cidade (#fica a dica). O preço da refeição era razoável, mas a comida não era tão farta quanto nos outros restaurantes.

Após mais um dia de comilança, fomos finalmente para o hotel arrumar as coisas e descansar, pois partiríamos para Belém na lancha rápida que sairia às 5:30h do dia seguinte, única opção de retorno para a capital nessa embarcação.

Atenção: Aos domingos não há percurso entre Belém - Soure - Belém nessa lancha.

Se eu tivesse mais tempo, ficaria mais um dia na cidade pra atravessar para Salvaterra, que também parece muito interessante. Como fomos num feriadão e queríamos rever os familiares e amigos em Belém antes de voltar pro Rio, voltamos antes. Todavia, como somos paraenses, creio que não faltarão oportunidades de retornar à ilha. Caso você não seja, recomendo pelo menos 3 dias/3 noites de estadia.

Passamos dois dias/duas noites no destino e só exploramos Soure. A cidade, mesmo sendo a mais importante da região, é uma cidade pequena, com estradas precárias e com muito a melhorar em termos de infraestrutura urbana. 

Não vá para lá esperando ver beleza na cidade em si, pois vai se decepcionar. O legal de uma viagem para um destino desse é explorar a gastronomia, o ecoturismo e a cultura do povo local – e a soma desses três fatores com certeza fará sua viagem valer a pena. 


Por falar em gastronomia, confesso que não tive coragem de comer turu, um molusco leitoso que dá nas árvores dos mangues e que os marajoaras costumam comer. Nos restaurantes de Soure, ele é preparado em um caldo e é uma iguaria comum por lá. Mas eu não consegui encarar. Reza a lenda que tem poder afrodisíaco rs.


Sugiro que saque dinheiro antes de ir para Soure, pois a cidade tem pouquíssimos bancos: apenas Banpará, Banco da Amazônia, Caixa Econômica e Banco do Brasil. Em muitos lugares conseguimos pagar com cartão, mas para pagar transporte interno e passeios apenas com dinheiro em espécie.




Por falar em transporte, vou deixar o contato de um dos mototaxistas que andou conosco. O nome dele é Adailton e é uma pessoa muito bacana, respeitosa e que não mediu esforços para nos atender. O celular dele é (91) 98492-1350 e não tem WhatsApp. Pagamos R$140 pelos trajetos internos (duas pessoas - duas motos rs).



Retornamos a Belém muito satisfeitos com nossa viagem pra Soure, que foi uma delícia para curtir a natureza, descansar e conhecer um pouquinho mais desse mundo chamado Brasil. 



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